segunda-feira, 26 de março de 2012

o cogumelo dourado e a raposinha morango (parte 13 - final)


na manhã seguinte acordei muito tarde, já se passava da hora do almoço e enquanto mamãe lavava roupa no quintal, invadi seu quarto e peguei numa caixa de chapéu a ultima carta que a força armada nos enviara, guardei nas calças e sai.

na casa do lenhador, portas e janelas estavam trancadas. Não havia ninguém ali. Nem o homem, nem seu filho, apenas raposinha morando deitada em frente a uma das janelas.
Frustrado, corri até a te o bosque das laranjeiras acompanhado pela minha amiguinha de pêlo ruivo.
Sentei numa pedra e pela primeira vez li uma das cartas que eu tanto adorava e quão grande foi minha surpresa ao descobrir, que tudo naquele papelzinho esverdeado, me era desconhecido.

 o general lamentava a perda de nossa família e prestava condolências à viúva, minha mãe.
Meu pai estava morto. Havia morrido em combate.
Meus olhos encheram-se das mais pesadas lagrimas e meu peito se doeu. Era como se meu coração diminuísse até atingir o tamanhinho de uma azeitona e o chão aos meus pés deixasse de existir. Raposinha morango tentava, ao seu modo, me consolar. Lambia-me e se enroscava em minhas pernas enquanto toda a minha fé afundava numa banheira de mentiras.

 corri pela primeira vez, sozinho, pelo bosque para o interior do santuário. Algumas folhas caiam levemente planando em uma corrente de ar gélido que abraçava meu corpo. Ajoelhei-me a beira do rio e encarei por alguns instantes meu reflexo.
“se pelo menos meu amigo estivesse aqui” pensei “onde será que ele esta? Pra onde seu pai o levou?”
O santuário parecia aos pouco absorver toda a minha melancolia e eu saí de lá antes que todo o ambiente se tornasse triste e depressivo.

na volta para casa, minha mãe me abordou com olhos tristes e um longo abraço.
“seu irmão tom voltou hoje pra casa e trouxe más noticias, meu anjo” disse-me
“porque não me disse que o papai estava morto?” chorei aos soluços
Mamãe desabou
“não te queria ver sofrendo. me perdoe. Errei ao mentir pra você por te achar muito novo para entender isso, me perdoe. Mas agora, veja que ironia, o destino nos pregou uma peça, meu amor” ela falou com os olhos com o s olhos lacrimosos. “não há mais maneiras fáceis de dizer isso...” continuou. “querido, seu amigo Charlie não acordou hoje” disse mamãe.
“Charlie?” engasguei
“sim, meu amor. O filho do lenhador esta morto”

quinta-feira, 22 de março de 2012

o cogumelo dourado e a raposinha morango (parte 12)


me desconcentrei da mesa por alguns instantes. Merendei calado e calmamente, logo em seguida voltei para o quarto e me deitei. Jack me seguiu.
Entrou, fechou a porta, sentou na cama e me cobriu com um lençol dando um beijo em minha testa e me dizendo: "sei que você está mentindo. você estava com aquele garotinho, não estava? tome mais cuidado comigo. posso não gostar do que vou descobrir".

naquela noite me arrumei para ir à missa com minha família, como o de costume e rapidamente elaborei um pequeno modo de encontrar o filho do lenhador em sua casa.
Na igreja, assisti os 30 minutos inicias da pregação e quando fomos chamados para a escolinha dominical, tratei de me perder entre as outras crianças e sai da igreja sem ser notado, corri a até a casa do lenhador e com cautela espiei cada uma de suas janelas.

o quarto de seu filho era o ultimo, apoiei-me de cotovelos no parapeito e conversamos.
“como você esta?” perguntei baixinho.
“muito mal. Tenho dores e enjôos” respondeu-me
“você já viu o medico?” continuei
“sim, mas ele passou uns remédios caros e papai achou melhor não comprar. Ele disse que as dores se vão sozinhas” disse-me
“seu pai esta em casa?”
“não, ele já saiu. Só volta de manhã”
“posso entrar?”
 entrei e deitei-me com meu amigo em sua cama. Pus sua cabeça em meu peito,assim como mamãe fazia conosco quando adoecíamos, ele estava bem quente e suava muito.
“amanhã, se você quiser, te trago umas cartas de meu pai. Elas sempre me animam” falei sorrindo e garoto sim apenas balançando a cabeça.
O quarto cheirava a vômito e alguns panos de chão se espalhavam ao lado da cama.
Tirei tudo de lá e levei um copo d’água para o filho do lenhador e ele dormiu em meu colo.
Quando o sino da igreja bateu as dez, corri ao encontro de minha mãe e voltamos todos juntos para casa.

o cogumelo dourado e a raposinha morango (parte 11)


o lenhador da cidade já estava de pé e parecia ter chegado a pouco do trabalho.
"onde você estava seu moleque?" gritou o homem com seu filho.
"ele dormiu em minha casa, senhor. estávamos brincando e perdemos a hora" tentei explicar. O homem puxou o garoto pelo braço para dentro de casa com agressividade surrando-o com força a face.
"pro quarto agora" disse o lenhador batendo com força a porta do pequeno chalé de madeira ignorando-me na varanda.

um silencio ensurdecedor tomou o lugar enquanto fiquei ali parado fitando a porta de entrada da casinha de madeira.
O caminho de volta para casa parecia infinito, a estrada de barro parecia cada vez mais estreita e o horizonte mais distante.
Nas arvores ao redor, alguns tocos e de arvores e pequenos troncos caídos criavam uma pequena trilha as margens de um grande matagal e pude sentir que alguém ali próximo me espiava cuidadosamente.

ao chegar a casa pulei novamente a janela de meu quarto e fui flagrado por Jack que abria minha porta.
Meu coração gelou como se uma forte tempestade de neve emanasse de minha cabeça em direção aos meus pés tomando todo o meu espírito.
"onde você estava?" perguntou meu irmão
"no pomar. fui ver o sol nascendo" menti
"porque pulou a janela? parece até que estava fugindo." prosseguiu
"não alcanço o ferrolho da porta da frente" falei
"mamãe ta chamando pra tomar café" avisou-me saindo


todos já estavam à mesa, exceto tomas.
"já faz três dias" disse mamãe pondo a mão no peito.
Beijei-a e cumprimentei meus irmãos. Sentei.
"dormiu mal, maninho? parece cansado" disse Jason, outro de meus irmãos.
"na verdade ele nem estava no quarto quando cheguei" polemizou Jack
"onde você estava meu amor?" perguntou mamãe
"fui ver o sol nascendo no pomar" reafirmei.
"sozinho?" provocou Jack
"sim" respondi indiferente.