ao bater na porta de casa, mamãe veio
nos receber com toalhas secas, roupas limpas e leite quentinho.
“onde conseguiu esse corte, meu bem?”
perguntou-me enquanto mandava um dos meus irmãos ir buscar a cavalo o medico
mais próximo.
“caí” respondi tímido.
Ela foi então até a cozinha e voltou
trazendo uma lata azul redonda com biscoitos cobertos de açúcar.
Quando o medico chegou à família inteira
encontrava-se na sala, todos os irmãos, mamãe e o filho do lenhador.
o medico e eu nos trancamos no quarto e
ele começou a costurar minha pele. Lembro-me de sentir mais dores aquela hora
que no santuário durante o corte. Ainda aquela cicatriz na panturrilha
esquerda. Lembro-me daquela tarde e do filho do lenhador sempre que vejo essa
marca.
Quando saímos do quarto, o filho do
lenhador já tinha ido embora e a chuva havia cessado completamente.
Lembrei-me então da carta que papai nos
enviara e pedi que mamãe fosse buscá-la para mim.
Mamãe voltou com a carta e leu para toda
a família em voz alta. Nela dizia que a guerra se aproximava do fim. Que
duraria mais algumas semanas. Papai havia se tornado um herói e por isso não
deveria voltar pra casa, moraria no quartel general e teria se promovido. Ele
disse que não poderia mais voltar pra casa e que ia sentir muita falta de
todos, que nos amava e queria somente o nosso bem.
Fiquei triste por não poder mais ver o
papai, mas ao mesmo tempo orgulhoso: meu pai virou um herói.
mamãe foi até a cozinha preparar a ceia
e tomas a seguiu. Eles cochichavam e da sala era impossível ouvir, mas pareciam
discutir sobre algo.
Tom saiu de casa batendo a porta.
Estranhei o fato dele nunca sair de noite, principalmente sem dar satisfação,
mas eu nada disse nem perguntei.
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