ao entrar no santuário a chuva despencou
com força.
Corríamos pelo campo como loucos e nos
jogávamos na grama molhada. Ele mais alto que eu, deslizava bem mais longe. Em
poucos minutos estávamos imundos.
A raposinha morango nos assistia
frenética sob uma árvore. Ela queria juntar-se a nós, mas evitava a chuva.
Pulava para os lados, indecisa e alegre.
Entramos no rio que ficava cada vez mais
cheio. Ele, muito exibido, enchia-se de orgulho me mostrando as mais belas
piruetas na água, enquanto eu assistia e mergulhava.
o primeiro trovão soou. Olhamos para o
céu e fomos fazer companhia à raposinha sob a árvore de folhas impermeáveis
tremendo de frio. A vista do santuário em um dia de chuva era a mais bela do
mundo. As flores dançavam e a grama ficava ainda mais verde. O céu escuro dava
destaque às flores de cores mais vivas. Sentamos o filho do lenhador e eu no
chão. Durante aquela tempestade cujos relâmpagos iluminavam o céu, nada me veio
à cabeça a não ser a idéia de fuga. Corri em direção ao bosque. Queria voltar
pra casa, mas fui impedido pelo chão liso e uma grande pedra que me fez um
corte de quase um palmo na perna.
a grama logo ficou vermelha e eu tentava
ao máximo não parecer fraco na frente do filho do lenhador. Quando ele me viu
ao chão apertando a perna, correu em minha direção. Ajudou-me a levantar e me
arrastou de volta para a coberta. Rapidamente tirou sua camisa e foi até o rio
molhá-la e voltando logo em seguida para amarrar firme minha perna que não
parava momento algum de sangrar. A chuva não cessava e eu nada podia fazer.
- a espera pelo fim da tempestade me fez
adormecer rapidamente.
Quando acordei a chuva ainda caia, porém
mais fina e a camisa do filho do lenhador amarrada em minha perna estava
completamente rubra pelo meu sangue.
Ele também dormia junto à raposinha
morango, de costas pra mim.
Tentei levantar sozinho, mas não foi
possível. Dei um forte suspiro de dor.
As orelhinhas de morango voltaram-se
para mim. Ela levantou acordando o filho do lenhador.
“santo deus, você ainda tá sangrando!
Melhor eu lavar o pano e refazer esse curativo. Depois te deixo em casa” disse
ele levantando.
Minha perna doía muito e infelizmente
atravessamos o bosque bem mais devagar que o de costume.
Não havia reparado, talvez porque
corríamos, mas todas as árvores dali pareciam ter rostos de ira ou de horror,
com buracos escuros a nos observar e galhos que mais pareciam braços que se
defendiam ou ameaçavam invasores que pudesse infiltrar-se no bosque.
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