na manhã seguinte acordei muito tarde, já se passava da hora
do almoço e enquanto mamãe lavava roupa no quintal, invadi seu quarto e peguei
numa caixa de chapéu a ultima carta que a força armada nos enviara, guardei nas
calças e sai.
na casa do lenhador, portas e janelas estavam trancadas.
Não havia ninguém ali. Nem o homem, nem seu filho, apenas raposinha morando
deitada em frente a uma das janelas.
Frustrado, corri até a te o bosque das laranjeiras
acompanhado pela minha amiguinha de pêlo ruivo.
Sentei numa pedra e pela primeira vez li uma das cartas que
eu tanto adorava e quão grande foi minha surpresa ao descobrir, que tudo
naquele papelzinho esverdeado, me era desconhecido.
o general lamentava a perda de nossa família e prestava
condolências à viúva, minha mãe.
Meu pai estava morto. Havia morrido em combate.
Meus olhos encheram-se das mais pesadas lagrimas e meu peito
se doeu. Era como se meu coração diminuísse até atingir o tamanhinho de uma
azeitona e o chão aos meus pés deixasse de existir. Raposinha morango tentava,
ao seu modo, me consolar. Lambia-me e se enroscava em minhas pernas enquanto
toda a minha fé afundava numa banheira de mentiras.
corri pela primeira vez, sozinho, pelo bosque para o
interior do santuário. Algumas folhas caiam levemente planando em uma corrente
de ar gélido que abraçava meu corpo. Ajoelhei-me a beira do rio e encarei por
alguns instantes meu reflexo.
“se pelo menos meu amigo estivesse aqui” pensei “onde será
que ele esta? Pra onde seu pai o levou?”
O santuário parecia aos pouco absorver toda a minha
melancolia e eu saí de lá antes que todo o ambiente se tornasse triste e
depressivo.
na volta para casa, minha mãe me abordou com olhos tristes e
um longo abraço.
“seu irmão tom voltou hoje pra casa e trouxe más noticias,
meu anjo” disse-me
“porque não me disse que o papai estava morto?” chorei aos
soluços
Mamãe desabou
“não te queria ver sofrendo. me perdoe. Errei ao mentir pra você por te
achar muito novo para entender isso, me perdoe. Mas agora, veja que ironia, o destino nos pregou
uma peça, meu amor” ela falou com os olhos com o s olhos lacrimosos. “não há
mais maneiras fáceis de dizer isso...” continuou. “querido, seu amigo Charlie não
acordou hoje” disse mamãe.
“Charlie?” engasguei
“sim, meu amor. O filho do lenhador esta morto”