eu tinha lá meus 10 anos de idade e cabelos longos ao
ombro. Fios cor de mel e pele branca queimada pelo sol. Meu pai estava servindo
ao país na guerra e minha mãe cuidava de criar sozinha a mim e outros seis
irmãos e naquela tarde nublada enquanto ela preparava chá pras visitas, tratei
de fugir até o bosque das laranjeiras para colher alguns cogumelos que cresciam
depois de uma noite chuvosa. Eu os escolhia de forma quase aleatória, e os
guardava em um vidro transparente.
Nunca havia entrado no bosque antes, sempre encerrava minha
busca quando o sol começava a se perder entre os galhos das árvores, logo na
entrada e ficava a fitar a escuridão misteriosa que o guardava.
foi quando passou por minhas pernas um bicho veloz de pelo
ruivo que causou minha queda e derrubou meus cogumelos. Segundos depois um
garoto pouco mais velho que eu, ajudou-me a levantar sustentando-me pelos
braços.
"tudo bem, campeão?" ele perguntou-me
"sim, tudo" falei
"venha, ajude-me a encontrar morango" pediu
"mas aqui não nasce morango" respondi
"não a fruta, minha raposinha morango! venha" e
entrou no bosque correndo e me puxando pela mão.
o lugar era escuro, mas não cegante. Eu o alertava dos
perigos que minha mãe me informava sobre aquele lugar enquanto corríamos de
mãos dadas no escuro entre as arvores e arbustos para não cair.Foi então que
ele se identificou como filho do lenhador.
o bosque ia ficando mais denso e estranhamente menos escuro.
Uma suave neblina subia até nosso joelho. A mata de arvores e arbustos abriu-se
repentinamente em um largo jardim florido.
Bromélias, begônias, orquídeas e jacarandás se espalhavam ao
redor do campo e uma enorme árvore centenária enfeitava o centro do jardim
criando uma sombra gostosíssima. A raposinha morango bebia água num pequenino
riacho que atravessava todo o santuário e corria ate a outra parte escura do
bosque.
"ali esta ela, essa danada" mostrou-me o filho do
lenhador "vou por um lado e você por outro. ela não vai fugir"
Assim a capturamos. O garoto pôs uma coleira no pescoço dela
e a prendeu sob uma laranjeira.
"sabe nadar, campeão?" convidou-me despindo a
blusa e as botas, pulando no lago logo
em seguida.
Tratei de fazer o mesmo sem se quer responder "sim".
Quando começou a escurecer, apressei-me, eu havia me
esquecido totalmente de minha mãe.
Corremos juntos novamente pelo bosque. Meus pés mal tocavam o
chão invisível pela escuridão.
Ao voltar para a entrada do bosque, o filho do lenhador e eu
nos despedimos.
quando atravessei a porteira de minha casa, minha mãe ainda
se despedia das visitas.
Perguntou-me onde estive e antes que eu pudesse responder me
intimou para ajudá-la com as louças do chá. Sou o mais novo da casa então
sempre que podia, minha mãe disputava minha atenção com os meus irmãos que
quase sempre saiam a cavalo para a cidade e me levavam junto a eles.
Meus momentos com mamãe eram sempre durante seus afazeres
domésticos, salvo a noite antes de me deitar quando ela lia pra mim as cartas que
papai nos enviava contando as historias do quartel e que ela nunca me deixou ler
sozinho.
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