terça-feira, 20 de março de 2012

o cogumelo dourado e a raposinha morango (parte 1)


eu tinha lá meus 10 anos de idade e cabelos longos ao ombro. Fios cor de mel e pele branca queimada pelo sol. Meu pai estava servindo ao país na guerra e minha mãe cuidava de criar sozinha a mim e outros seis irmãos e naquela tarde nublada enquanto ela preparava chá pras visitas, tratei de fugir até o bosque das laranjeiras para colher alguns cogumelos que cresciam depois de uma noite chuvosa. Eu os escolhia de forma quase aleatória, e os guardava em um vidro transparente.
Nunca havia entrado no bosque antes, sempre encerrava minha busca quando o sol começava a se perder entre os galhos das árvores, logo na entrada e ficava a fitar a escuridão misteriosa que o guardava.

foi quando passou por minhas pernas um bicho veloz de pelo ruivo que causou minha queda e derrubou meus cogumelos. Segundos depois um garoto pouco mais velho que eu, ajudou-me a levantar sustentando-me pelos braços.
"tudo bem, campeão?" ele perguntou-me
"sim, tudo" falei
"venha, ajude-me a encontrar morango" pediu
"mas aqui não nasce morango" respondi
"não a fruta, minha raposinha morango! venha" e entrou no bosque correndo e me puxando pela mão.

o lugar era escuro, mas não cegante. Eu o alertava dos perigos que minha mãe me informava sobre aquele lugar enquanto corríamos de mãos dadas no escuro entre as arvores e arbustos para não cair.Foi então que ele se identificou como filho do lenhador.

o bosque ia ficando mais denso e estranhamente menos escuro. Uma suave neblina subia até nosso joelho. A mata de arvores e arbustos abriu-se repentinamente em um largo jardim florido.
Bromélias, begônias, orquídeas e jacarandás se espalhavam ao redor do campo e uma enorme árvore centenária enfeitava o centro do jardim criando uma sombra gostosíssima. A raposinha morango bebia água num pequenino riacho que atravessava todo o santuário e corria ate a outra parte escura do bosque.
"ali esta ela, essa danada" mostrou-me o filho do lenhador "vou por um lado e você por outro. ela não vai fugir"
Assim a capturamos. O garoto pôs uma coleira no pescoço dela e a prendeu sob uma laranjeira.

 "sabe nadar, campeão?" convidou-me despindo a blusa e as botas,  pulando no lago logo em seguida.
Tratei de fazer o mesmo sem se quer responder "sim".
Quando começou a escurecer, apressei-me, eu havia me esquecido totalmente de minha mãe. 
Corremos juntos novamente pelo bosque. Meus pés mal tocavam o chão invisível pela escuridão.
Ao voltar para a entrada do bosque, o filho do lenhador e eu nos despedimos.

quando atravessei a porteira de minha casa, minha mãe ainda se despedia das visitas.
Perguntou-me onde estive e antes que eu pudesse responder me intimou para ajudá-la com as louças do chá. Sou o mais novo da casa então sempre que podia, minha mãe disputava minha atenção com os meus irmãos que quase sempre saiam a cavalo para a cidade e me levavam junto a eles.
Meus momentos com mamãe eram sempre durante seus afazeres domésticos, salvo a noite antes de me deitar quando ela lia pra mim as cartas que papai nos enviava contando as historias do quartel e que ela nunca me deixou ler sozinho.


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